Caçamba: use com moderação

Com 5.000 delas na cidade, seguir à risca as leis de utilização é a saída para não atrapalhar a vida de todo mundo

Por Giba Bergamim Jr.

As sete caçambas estão enfileiradas na rua Antonio de Macedo Soares, no Campo Belo (zona sul), há meses. São toneladas de entulho ali despejadas diariamente. Nas alamedas Ministro Rocha Azevedo, Itu e Franca, nos Jardins (região oeste), elas também são vistas aos montes. No Alto de Pinheiros (zona oeste), são três só em frente ao número 199 da avenida Professor Frederico Herman Júnior.

Todos os dias, 240 empresas legalizadas tiram e colocam 5.000 delas nas ruas da cidade, causando a sensação de que em cada curva o motorista ou pedestre vai se deparar com uma caçamba. O tira e põe dos trambolhos de metal resulta no transporte diário de 4.500 toneladas de restos de construções, que são levados diariamente aos aterros sanitários nos extremos da cidade. Exclui-se aqui o que clandestinos despejam nas ruas. Numa única operação da prefeitura, em julho, 16 caminhões foram flagrados descarregando restos de construções nos bairros.

Para entender o funcionamento do transporte de entulho e saber se as empresas e os clientes respeitam as regras estabelecidas pela prefeitura, a sãopaulo percorreu três áreas da cidade (centro e zonas oeste e sul) nas últimas três semanas.

Novos empreendimentos imobiliários, principalmente de alto padrão, sustentam o fenômeno da proliferação de caçambas por tempo indeterminado — em alguns casos, elas viram parte do cenário por quase um ano. É comum uma pessoa comprar um apartamento e, em seguida, passar meses reformando o imóvel.

Bairros como Pinheiros, Higienópolis, Campo Belo e Brooklin, além da região dos Jardins, estão entre os que mais concentram caçambas. No último dia 27, só no quarteirão formado pelas ruas Antonio de Macedo Soares, Gabrielle D'Annunzio, Édson e Conde de Porto Alegre, no Campo Belo, 14 caçambas ocupavam vagas para carros. Lado a lado, cada uma recebe, por dia, até quatro toneladas de concreto, gesso, pisos e azulejos.

O destino que se dá a todo o entulho da cidade depende de um grupo de trabalhadores que já ganhou o apelido de caçambeiros — são os empresários do entulho. Eles têm que cumprir regras rígidas para não receber multas que variam de R$ 500 a R$ 12 mil.

A multa mais salgada é aplicada quando despejam a sujeira em locais proibidos. De janeiro a agosto deste ano, o Limpurb (Departamento de Limpeza Urbana, da prefeitura) aplicou 1.137 multas e apreendeu 864 caçambas em situação irregular ou clandestina. Entre janeiro e agosto, outras 5.096 multas por descarte irregular de lixo e entulho foram emitidas.

Os caçambeiros são imprescindíveis para quem reforma ou constrói. Mas também motivo de irritação para motoristas em busca de vagas em áreas de Zona Azul ou vizinhos inconformados com as pilhas de entulho.

"O certo era a planta da construção do prédio incluir uma vaga para a caçamba. Mas, não, hoje coloca-se na vaga de Zona Azul, no estacionamento de visitante. Dá até briga no condomínio. Ninguém é feliz com caçamba, só quem precisa usar", afirma Luiz Lazarini, presidente do Sieresp (sindicato das empresas removedoras de entulho).

Além dos horários restritos de tráfego — caminhões de entulho só circulam das 10h às 16h e das 21h às 5h —, eles são obrigados a trocar as caçambas a cada 72 horas. O reservatório não pode estar enferrujado, deve ter nome e telefone da empresa, além do site do Limpurb para reclamações.

A rigidez com o horário depende também de quem contrata. Há clientes que acionam as empresas e despejam o entulho aos poucos. Segundo empresários, muitas vezes os contratantes não querem pagar o preço de uma caçamba — em média, R$ 220 a cada três dias. "Não é culpa da gente. O cliente paga só quando vamos retirar e tem que estar cheia. Por isso, acabamos deixando", conta o caçambeiro Carlos Roberto, 51.

Há dez anos, Roberto tem uma empresa e passa o dia na boleia carregando todo o entulho que coleta. "É impossível respeitar os prazos. A gente tenta retirar em cinco dias. É o máximo possível", relata Régis da Cunha Vaz, 32, dono de uma empresa que atua na zona oeste.

Proprietária de um restaurante na rua Tupi, em Higienópolis (região central), a comerciante Ray Ramalho, 52, está acostumada com as caçambas. "O pessoal da rua reclama mais quando tem obra grande. Ficam quatro de uma vez. Hoje até que está tranquilo", explica.

O taxista Roberto Dias, que trabalha num ponto da rua Padre João Manoel, nos Jardins, costuma ouvir reclamações. "De manhã, elas ocupam as poucas vagas de estacionamento. Aí o pessoal chia", conta.

Antes da regulamentação das caçambas, o transporte de entulho era feito na carroceria de caminhões e havia pouca fiscalização sobre seu destino. Na década de 1990, as caçambas com o formato atual começaram a se alastrar. Segundo o sindicato, surgiram quase 900 empresas. Com a concorrência e a maior rigidez na fiscalização, muitas saíram do mercado. Hoje, por exemplo, cerca de 60 atuam numa espécie de consórcio, com administração unificada. Mas o mercado é tão movimentado que até ladrões aparecem. Segundo empresários, caçambas são furtadas para serem usadas por clandestinos.

Quem não quiser contratar uma empresa pode procurar um dos 37 ecopontos da prefeitura (a lista está em www.limpurb.sp.gov.br). A eles é possível levar até 1 m³ de entulho, além de madeira, móveis e restos de poda de árvore. O volume corresponde a uma caixa d'água de mil litros ou até 25% de uma caçamba.

Um mar de entulho

A fila de caminhões que contorna a ladeira num terreno do bairro de Pedreira, zona sul da capital, dá uma boa noção de quanto entulho se produz na cidade. É ali, no transbordo Itatinga, que centenas de veículos despejam toneladas de concreto, azulejos, pisos e até lixo colocados nas caçambas.

O transbordo é um dos quatro que a prefeitura dispõe para receber o entulho. Nele, o material é separado para, em seguida, ser levado aos aterros sanitários. Cada caçambeiro paga R$ 35 para descarregar. Se optar por um aterro particular, paga R$ 80.

Gabriel Vieira de Barros, 69, transporta entulho desde 1975, uma época em que as caçambas nem existiam — eram usados caminhões basculante. Dono de uma empresa, ele espera 40 minutos até chegar sua vez de despejar a sujeira. "Hoje é mais fácil. A gente pega uma senha e tem horário para descarregar. Antigamente, a gente ficava quase cinco horas aqui", explica.

Uma nuvem de poeira grossa cruza o horizonte toda vez que um caminhão descarrega no Itatinga. O trabalho de João Batista Nascimento, 43, é separar o entulho do resto — madeira, papel e plástico. "Fico aqui seis horas por dia. É um serviço pesado", afirma. Ele usa luvas, mas dispensa a máscara.

Somente 10% do que não é entulho pode ficar ali. O limite existe para evitar que caçambas com excesso de madeira, restos de móveis e até lixo fiquem no transbordo. Como muitas caçambas acabam sendo usadas como lixeiras, é comum elas saírem do transbordo com boa parte do que levaram. "O transbordo tem que rejeitar. Tem gente que às vezes volta com a caçamba pela metade", conta Luiz Lazarini, do Sieresp. Nesses casos, o caçambeiro terá que despejar a sujeira em outro aterro.

Regras para recolher o entulho

Empresários e clientes devem seguir um manual de conduta.

- 72 horas é o tempo máximo de permanência de uma caçamba. Se não for trocada ou retirada, o cliente deve acionar a empresa.

- Caçamba de entulho não é depósito de lixo. Portanto, não é permitido colocar lixo doméstico nem móveis descartados. Eles serão rejeitados nos aterros sanitários e podem voltar às ruas.

- Cada caçamba deve ter o nome da empresa, o número do cadastro, a data de validade e os números do telefone para reclamações (156) e da própria empresa.

- A caçamba deve ter 14 faixa reflexivas para evitar acidentes à noite.

- Elas não podem estar enferrujadas ou com os dados apagados. É importante exigir que a empresa comprove a destinação final do material.

- Os reservatórios de entulhos podem ocupar uma vaga de carro na rua. Quando for área de Zona Azul, a empresa deve ter uma autorização especial da CET, que vale por 5 dias.

As caçambas e a cidade

- 240 empresas coletoras de caçambas legalizadas atuam na capital. No Estado, há pelo menos 490.

- 5.000 é o número estimado de caçambas legalizadas na cidade.

- R$ 220, em média, é o preço cobrado pelas empresas por cada caçamba lotada.

- R$ 12 mil é a multa para quem despejar o entulho nas ruas.

- 864 caçambas em situação irregular ou clandestina foram apreendidas em 2010.

- 4,5 mil toneladas de entulho são despejadas todos os dias nos aterros da cidade.

O caminho da sujeira

1- Depois de 72 horas, as caçambas são retiradas das ruas.

2- Os caminhões levam as caçambas ao transbordo.

3- Lá, o entulho é despejado e separado. Os transbordos aceitam só 10% do que não é considerado entulho (madeira, plástico e papel). Se passar de 10%, o dono da caçamba leva de volta o material além do limite.

4- O entulho é levado por outros caminhões aos três aterros sanitários que têm convênio com a prefeitura.

(Fonte: Prefeitura de São Paulo e sindicato das empresas removedoras de entulho do estado – Sieresp)

Novo negócio: fabricar caçambas

Não são apenas os donos de caçambas que lucram com o entulho produzido pelos paulistanos. O técnico em metalurgia Ricardo Akira Kobayashi, 32, é a prova disso. A demanda pelo serviço fez com que ele alugasse um galpão na Vila Dalva, zona oeste, para soldar as chapas de aço que se transformarão em depósitos de entulho.

Além de produzir, ele faz reformas nas peças. "Recebo mais ou menos 25 pedidos por mês", conta ele, que contratou um assistente. Sob um calor sufocante, eles passam o dia com o maçarico na mão. Kobayashi decidiu entrar no ramo depois de ver a impressionante quantidade de caçambas nas ruas e por ter um amigo dono de empresa. Ele cobra R$ 1.600 para fazer a caçamba. "Uso as medidas certas. Deixo prontinha, pintada de branco", explica. Depois, resta ao dono colocar as informações necessárias, como nome e telefone da empresa, e colar as faixas reflexivas, seguindo as normas. Na semana passada, ele reformou uma. O monte de ferros retorcidos voltou a ser uma caçamba. Para ver o negócio prosperar, ele dá garantias. "Podem durar até quatro anos", diz.


Fonte: Matéria e imagens da Revista sãopaulo nº 15 (12 a 18 de setembro de 2010) – Folha de S. Paulo.


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